segunda-feira, 14 de julho de 2014

Temporada Verão 2014 - Primeiras Impressões pt2



Continuação desse post aqui.

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Zankyou no Terror


Gêneros: Psicológico, Thriller
Fonte: Original
Estúdio: MAPPA

Em um dia de verão um massivo atentado terrorista subitamente atinge Tóquio. Os culpados por trás do ato que acordou esta nação complacente de seu sono eram apenas dois garotos. Agora os culpados conhecidos como “Esfinge” começam um jogo grandioso que abrange todo o Japão.


Pra começar, vale lembrar que esse anime é dirigido pelo já lendário Shinichiro Watanabe (Cowboy BebopKid's StoryA Detective StorySpaceDandy), cujo nome é um selo de qualidade. Dito isso, pode esperar todos os aspectos técnicos impecáveis (pra evitar o termo perfeitos).

Os personagens principais despertam interesse logo à primeira vista, e conseguem ser visualmente únicos mesmo sem ter nenhum traço exagerado. O mistério é construído de forma perfeita: ele esconde o suficiente para te deixar intrigado, mas mostra o suficiente para você perceber que REALMENTE existe algo por trás (porque o que não falta é roteirista picareta que tenta construir mistério em cima de nada).

Não há nada mais que eu possa dizer além de: ASSISTA! Com apenas 11 episódios, tem tudo para ser o anime da temporada (e do ano).

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Barakamon


Gêneros: Comédia, Slice of Life
Fonte: Manga
Estúdio: Kinema Citrus

Como punição por esmurrar um calígrafo famoso, o jovem e bonito calígrafo Handa Seishu é exilado em uma pequena ilha. Como alguém que nunca viveu fora de uma cidade grande, Handa tem de se adaptar aos seus novos e malucos vizinhos, como as pessoas que viajam de trator, visitantes indesejados que nunca usam a porta da frente, crianças irritantes usando sua casa como um parque infantil etc. Será que esse cara da cidade conseguirá aguentar essas loucuras? Descubra nessa comédia cheia de inocência e risos.


A animação impecável e a direção maravilhosa de Masaki Tachibana me conquistaram já na primeira cena. Mas não parou aí.

A premissa de um homem da cidade que vai para o interior encontrar a si mesmo é velha, mas esse anime provou que velhas histórias merecem ser recontadas, desde que de forma bem-feita. Todos os personagens são carismáticos, e a química entre o protagonista e a menininha irritante funcionou com precisão.

Com 12 episódios, vai disputar o posto de anime da temporada com Zankyou no Terror.

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Ao Haru Ride


Gêneros: Comédia, Drama, Romance, Escolar, Shoujo
Fonte: Manga
Estúdio: Production I.G

Yoshioka Futaba tem algumas razões pelas quais ela quer “reiniciar” sua imagem e sua vida como uma nova estudante de ensino médio. Por ser bonita e fofa, acabou condenada ao ostracismo por suas colegas do sexo feminino no ensino fundamental. Além disso, por causa de um mal-entendido ela não conseguiu expressar seus sentimentos para o garoto de quem gostava, Tanaka-kun. Agora ela está determinada a ser tão grosseira quanto possível, de modo que seus amigos não fiquem com ciúmes dela. Enquanto vivia sua vida assim, Futuba encontra Tanaka-kun novamente.


Nos aspectos técnicos, as cores pouco vibrantes e a trilha sonora predominantemente suave combinam para criar uma atmosfera bem tranquila. O ritmo desacelerado da narrativa acompanha perfeitamente, mas pode desagradar as pessoas que preferem coisas mais "alucinadas".

A princípio, a premissa não me atraiu. Mas o enredo foi bem construído, com destaque a uma característica interessante: os personagens foram bem mais honestos com seus sentimentos do que costumam ser em animes shoujo. Não está entre meus favoritos, mas, sendo um anime curto (12 episódios), é possível que acabe antes de se tornar repetitivo.

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Bakumatsu Rock


Gêneros: Musical
Fonte: Vídeo Game
Estúdio: Studio Deen

A história se passa na era Bakumatsu, no final do comando dos shoguns sobre o Japão. O shogunato Tokugawa usa as Canções do Paraíso cantadas pelos principais idols do Shinsengumi para fazer lavagem cerebral e subjugar o país e seu povo. Neste Japão, escrever ou cantar qualquer música além das Canções do Paraíso é uma ofensa capital. Sakamoto Ryouma e outros roqueiros se levantam para mudar o mundo com o rock ‘n roll, lutando pela liberdade e justiça.


Uma tsunami de clichês, surfada por personagens rasos e estereotipados. Apesar de tudo, achei que o humor conseguiu acertar a mão, e assistir esse anime não foi uma experiência ruim. Mas não acho que isso me seguraria durante 12 episódios.

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Futsuu no Joshikousei ga [Locodol] Yatte Mita


Gêneros: Comédia, Seinen
Fonte: Manga
Estúdio: Feel

A história é sobre a vida de uma garota do ensino médio, Nanako, e sua senpai, Yukari, que acabam se tornando idols locais (locodol) a pedido de seu tio. No entanto, elas logo descobrem que seu novo estilo de vida é menos estelar do que imaginavam, visto que apenas são entrevistadas por centros comerciais da cidade, aparecem em programas de TV de baixo orçamento e fazem shows no telhado de lojas de departamento. Os salários são pagos dos impostos da cidade.

Apesar de não gostar nem um pouco da cultura idol, tinha boas expectativas quanto a esse anime. Talvez por ele estar listado como seinen (ou seja, público-alvo um pouco mais velho), esperava que ele fosse mais crítico quanto a essa cultura. Mas ele acabou puxando mais para uma comédia leve, com uma dose ainda tolerável de moe.

Mas não foi ruim. A protagonista, Nanako, é bastante carismática, e sua relação com o tio/empresário gerou ótimos momentos. Já a senpai, Yukari, faz o papel de "menina perfeita", por isso é completamente sem graça.

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Himegoto


Gêneros: Comédia, Ecchi, Gender Bender, Slice of Life
Fonte: Manga
Estúdio: Asahi Production


A história segue Hime Arikawa, um menino que está sendo perseguido por pessoas assustadoras. No entanto, ele é resgatado do perigo pelas meninas do conselho estudantil de sua escola – 18-Kin-san, presidente Unko e Beru-senpai. O conselho estudantil assumirá a dívida de Arikawa sob uma condição: “Como cachorro do conselho estudantil, você vai passar sua vida do ensino médio em roupas de mulher”.

Eu sei, a sinopse é meio estranha. Mas o anime é insano e engraçado. E, tendo apenas 4 minutos de duração, não precisa de muito mais que isso. Vale a pena pra quem gosta desse tipo de anime.

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Jinsei


Gêneros: Slice of Life
Fonte: Light Novel
Estúdio: Feel


A história gira em torno de Yuuki Akamatsu, um menino que se junta à equipe do segundo jornal de sua escola. A editora-chefe, Ayaka Nikaido, imediatamente atribui para ele a coluna de conselhos para vida. Três meninas – a representante de ciências, Rino Endo, a representante das artes liberais, Fumi Kujo, e a representante de educação física, Ikumi Suzuki – respondem perguntas de alunos sobre o que os está incomodando.

Este é uma verdadeira dúvida. Por um lado, a premissa de o protagonista ter que interagir com três garotas de personalidades completamente diferentes é interessante. Isso gera diálogos ótimos, com destaque para toda a cena do Clube dos Indecisos. Por outro, a quantidade de moe, fanservice e puro e simples besteirol deixou o episódio um pouco arrastado e difícil de assistir em alguns momentos. Além disso, as personagens não cativaram e o character design é bem genérico.

E então, vale a pena passar por uma cena de guerra de bexigas de água pra chegar em uma discussão sobre fatalismo e sistema estocástico?

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Glasslip


Gêneros: Slice of Life
Fonte: Original
Estúdio: P.A. Works

A história segue seis estudantes do ensino médio que se reúnem durante o verão. O protagonista é Touko Fukami, um jovem de 17 anos de idade, nascido na prefeitura de Fukui. Seu sonho é se tornar um artesão de vidro.


Muito bonitinho e tal, mas não me cativou. Não sei se o problema fui eu, mas simplesmente tive que tentar várias vezes pra conseguir assistir. Achei muito lento, e os personagens não prenderam meu interesse.

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Acho que termino por aqui minhas Primeiras Impressões dessa temporada. A princípio pensei que seria uma temporada fraca, mas acabei tendo várias boas surpresas. Acho que os que mais se destacaram pra mim, em termos de primeiro episódio apenas, foram Zankyou no Terror, Barakamon e Tokyo Ghoul.

Se surgir mais alguma coisa eu faço um adendo.

domingo, 6 de julho de 2014

Temporada Verão 2014 - Primeiras Impressões pt1



Começou a nova temporada de animes lá no Japão; uma temporada com a segunda temporada do excepcional Space Dandy, mas poucas estreias promissoras. Vamos esperar que haja ao menos uma ou duas boas surpresas nos aguardando.

Obs: Para o guia completo da temporada, checar o sempre excelente post do Gyabbo.

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Shirogane no Ishi Argevollen


Gêneros: Mecha, Ação
Fonte: Original
Estúdio: Xebec

Em um mundo onde os países Alanda e Ingermia estão em guerra há um longo período, o soldado Tokimune salva uma garota chamada Jamie do ataque das forças inimigas; agora, para conseguir sobreviver, ele passa a lutar usando o Argevollen, um nova arma de guerra.


Os aspectos técnicos não trazem nada de novo ou surpreendente - são até bastante genéricos -  mas funcionam dentro do gênero. O uso de CGI para fazer os mechas - o que dá margem para animações horríveis - neste caso é até sutil e bem encaixado. Peca, no entanto, pela lentidão das cenas de ação e pela incapacidade de representar o peso dos robôs.

A trama é genérica, mas não tenta se supervalorizar e não perde tempo com narração expositiva, o que é positivo. Os personagens ainda não foram decentemente apresentados e parecem bastante clichê, inclusive na aparência. Um pecado especial é a quantidade inexplicável de garotas "fofinhas" em meio às forças armadas. Fica um salve positivo por tirar parte do foco do combate em si e mostrar um pouco do dia-a-dia dos soldados em uma situação de guerra.

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Rail Wars



Gêneros: Ação, Romance, Shounen

Fonte: Light Novel

Estúdio: Passione

A história do “sonho do entretenimento ferroviário paradisíaco” é ambientado em um mundo paralelo onde o Japão não privatizou suas as ferrovias nacionais. Naohito Takayama é um garoto comum do ensino médio que sonha com um futuro confortável trabalhando para as Ferrovias Nacionais do Japão. Ele é contratado como estagiário na Força de Segurança, cheia de pessoas estranhas, como Sakurai, um encrenqueiro que odeia homens. Além disso, um grupo extremista chamado “RJ” planeja privatizar as estradas de ferro nacionais japonesas.


Bonito e bem animado, embora sem nada que impressione ou encha os olhos. A trilha sonora é básica, mas tem alguns toques de jazz que quebram a monotonia e contribuem bastante para o clima leve do anime.

A trama é curiosa, e avança neste primeiro episódio em um ritmo muito rápido, mas que ainda funciona. Resta saber qual será o comprimento da série e se este ritmo se manterá; é provável que não. Os personagens ainda não foram desenvolvidos e parecem bem clichê, mas têm algum carisma. Acho que vale assistir mais um ou dois episódios pra ver no que vai dar.

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Tokyo Ghoul


Gêneros: Sobrenatural, Psicológico, Seinen
Fonte: Manga
Estúdio: Studio Pierrot

O suspense de horror se passa em uma Tóquio assombrada pelos misteriosos “fantasmas” que estão devorando seres humanos. As pessoas estão tomadas pelo medo destes fantasmas cujas identidades são mascaradas em mistério. Um estudante universitário comum chamado Kaneki encontra Rize, uma menina que é uma ávida leitora como ele. Ele não percebe que seu destino irá mudar durante essa noite.


Confesso que esperava apenas mais um destes animes sombrios, gráficos e insanamente violentos que fazem sucesso entre pré-adolescentes revoltadinhos. Fui surpreendido por uma trama muito bem construída, que promete embarcar de forma bastante dramática no psicológico e moralidade do protagonista. A apresentação do universo foi minimalista e elegante, mas quase escorregou na cena final e se tornou desnecessariamente expositiva.

O conjunto técnico (estética, animação, trilha sonora...) foi impecável. O destaque fica para os cenários bem construídos e bem aproveitados e, acima de tudo, à direção de Shuhei Morita. A montagem das cenas foi muito bem feita, acelerando ou desacelerando o ritmo de acordo com o que a trama pedia. Primeira boa surpresa da temporada.

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Aldnoah Zero



Gêneros: Ação, Mecha, Ficção Científica
Fonte: Original
Estúdio: A-1 Pictures

Em 1972, uma hipervia foi descoberta na superfície da lua e a humanidade começou a migrar para Marte, estabelecendo-se por lá. No entanto, eventualmente, as sementes da guerra foram semeadas.


O anime tem mais personalidade do que sua sinopse genérica faz parecer. Nos quesitos técnicos, o destaque fica para a trilha sonora, muito bem orquestrada e que constrói muito bem os momentos de tensão da penúltima sequência. Lembra um pouco a trilha de Pacific Rim. Apesar disso, os acorde principais de um dos temas parece um rip-off do tema principal de Kill la Kill, Don't Lose Your Way.

A montagem e direção (de Ei Aoki) é muito bem executada - ele alterna entre diversos núcleos de personagens ao invés de seguir uma linha única, dando um sabor especial ao anime e conseguindo estabelecer o universo sem apelar muito para as exposições. Ainda é cedo para falar dos personagens, mas essa série pode ser uma boa promessa.

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Akame ga Kill


Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia
Fonte: Manga
Estúdio: White Fox

Em um mundo de fantasia, o lutador Tatsumi parte para Capitol com o intuito de ganhar dinheiro para a sua aldeia que está morrendo de fome, mas acaba encontrando um mundo de corrupção inimaginável, tudo se espalhando a partir do depravado primeiro-ministro. Depois de quase se tornar uma vítima desta próprio corrupção, Tatsumi é recrutado pelo Raid Night, um grupo de assassinos dedicados a eliminar a corrupção que assola Capitol.


O anime promete ser apenas mais um battle shonen genérico, com aquele enredo clichê de protagonista guerreiro que sai de sua vila no interior para ir à cidade grande. E é exatamente isso que ele entrega.

Ao menos até a sequência final, quando as coisas mudam de figura e o potencial da série sobe imensamente. Não vou dizer mais nada, pra não estragar a experiência, mas vale a pena assistir este primeiro episódio.

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Gekkan Shoujo Nozaki-kun


Gêneros: Comédia, Romance, Escolar, Shoujo
Fonte: Manga
Estúdio: Dogakobo

É uma comédia romântica que começa quando a estudante do ensino médio, Sakura Chiyo, confessa seus sentimentos para seu colega Nozaki. Devido a um mal-entendido, Nozaki pensa que Sakura é apenas uma fã de seu trabalho como mangaka de shoujo.


Toda temporada eu escolho um shoujo bonitinho para assistir junto com a minha namorada, e esse tem tudo pra ser o escolhido da vez. A dinâmica entre os eventos românticos que o protagonista masculino representa em seu mangá e a falta de romantismo em sua vida real dá o tom humorístico, junto com as "reações internas" da protagonista feminina (bem utilizadas, lembrando Nisekoi). Está, aliás, é bastante carismática, característica imprescindível neste tipo de anime. Já a falta de carisma do protagonista masculino é intencional e serve a propósitos narrativos, por isso não incomoda.

Os aspectos técnicos funcionam muito bem, mas também não inovam. A música de abertura é especialmente boa, minha favorita da temporada até agora. Saldo final: altamente recomendável pra quem gosta do gênero.

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Vou encerrar por aqui este post, mas haverá mais um, talvez até dois. É, esta temporada não está se saindo mal, mas ainda falta algo que exploda minha cabeça, um Space Dandy da vida. Quem sabe no próximo lote?

Parte 2 aqui.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Floresta Medieval: Espaço de Alteridade e Marginalidade



Obs: Este texto foi originalmente concebido como um trabalho de faculdade, por isso talvez tenha uma linguagem ligeiramente diferente da que costumo usar aqui no blog.

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1. Introdução

Embora em processo de desmatamento desde a pré-história e mais intensamente desde os tempos romanos, durante a Idade Média as florestas ainda ocupavam grandes extensões do território europeu. Em uma sociedade espacialmente fragmentada e encelulada, as vegetações coníferas e as hoje quase extintas florestas temperadas ocupavam todos os espaços vagos entre os bolsões de terra cultivada e civilizada, de forma que algum bosque ou mata estava sempre dentro do alcance das pernas e da imaginação do homem medieval.

Dimensões do desmatamento entre a Alta Idade Média e a Idade Contemporânea 


O próprio termo floresta (ou forest, no inglês) deriva do latim foris, significando algo como do lado de fora. Vendo que deserto deriva de desertus - lugar abandonado, fora de ordem – fica claro o motivo pelo qual estes termos muitas vezes apareciam quase como sinônimos nos textos romanos e medievais. Para o homem medieval, mais importante que as especificidades de cada bioma era o fato de que todos os espaços selvagens eram tidos como externos, caóticos e indesejáveis. O que não deixa de ser contraditório (ou no mínimo irônico), visto a importância dos recursos que estes ambientes ofereciam.

Fora da sociedade organizada e longe das figuras de poder, a floresta estava repleta de perigos reais, como bandidos de estrada e animais selvagens. Mas foi no imaginário e na literatura que ela mais brilhou, sendo descrita como o espaço da magia, do sobrenatural, do maravilhoso e dos atos vilanescos. Seja nos poemas épicos, nas hagiografias ou na literatura cavalheiresca, com frequência é nas imensidões florestais que o santo ou herói precisa penetrar para enfrentar o demônio e seus agentes.

É seguro supor que este ambiente ocupava na mentalidade medieval um lugar como espaço por excelência do Outro, do Forasteiro (termo que deriva da mesma raiz foris, assim como o equivalente em inglês, foreign), do Marginal.

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2. O papel da floresta na sociedade medieval

O papel mais comumente lembrado da floresta na sociedade medieval é como mecanismo de poder da classe dominante, através da caça. Além de um entretenimento, a caça era uma ferramenta importante para reafirmar visualmente o domínio da nobreza sobre toda a extensão do território, inclusive as áreas ermas.

Cena de caça a animais grandes, um privilégio da nobreza


No entanto, não era esta a única importância das florestas. Apesar de toda a carga cultural negativa, as regiões não cultivadas ofereciam recursos importantes à economia medieval - embora ainda minoritários em relação ao cultivo agrícola.

Talvez o recurso mais óbvio seja a madeira, amplamente utilizada na fabricação de casas, móveis, ferramentas e, de modo geral, a maior parte dos utensílios medievais não metálicos. Mais que isso, a madeira era importante como lenha (especialmente no frio norte europeu) e para ser transformada (ainda dentro do espaço florestal, vale lembrar) em carvão vegetal, usado como combustível para forjas, vidrarias, fornos de produção de cerâmica e afins.

A floresta servia também como pastagem para animais como cavalos e, sobretudo, porcos, engordados com bolotas de carvalho como herança da tradição germânica. Nelas também se concentravam importantes depósitos de minerais, como ferro e carvão mineral.

A engorda dos porcos antes do inverno


Embora em geral as florestas fossem tidas como propriedades reais ou dos senhores locais, e seu uso fosse regulado e pesadamente cobrado, havia larga exploração destes recursos. O regime de trabalho variava: em alguns casos, haviam trabalhadores especializados, em outros, estes recursos eram explorados por grupos de camponeses agricultores, contratados para empreendimentos sazonais. De uma forma ou de outra, é importante notar que havia toda uma categoria social de trabalhadores ligados diretamente à floresta, que se aventuravam regularmente nestes espaços selvagens e marginais.

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3. Perigo e marginalidade

Mesmo pondo de lado todos os monstros e criaturas sobrenaturais que enchiam as páginas dos bestiários e povoavam o imaginário medieval, as regiões incultas estavam repletas de perigos mundanos. Bandidos e saqueadores (geralmente uma atividade sazonal) - embora conhecidos por atacar vilas, monastérios e até cidades - eram também menção recorrente em relatos de viagens e peregrinações através de áreas ermas.

Outra possível ameaça eram os animais selvagens. Os lobos, em especial, parecem ter causado grandes danos, justificando sua entrada massiva no imaginário (até hoje, poucas criaturas têm tanto apelo quanto o Lobisomem). Se eram comuns ataques em vilas e até mesmo em grandes cidades (como evidencia, por exemplo, o Diário do burguês de Paris, escrito entre 1409 e 1449), imagine nas regiões mais periféricas?

Lobo espreitando ovelhas


Apesar de todos os perigos reais, é possível encontrar outros fatores que levaram as florestas a serem retratadas como espaços de marginalidade. De fato, as culturas celtas e germânicas possuíam uma relação muito mais amigável com os bosques e regiões incultas que os romanos. O historiador romano Tácito, por exemplo, encontrou como maior ofensa chamar os inimigos de Roma de habitantes de florestas.

É possível atribuir o desprezo dos romanos aos territórios incultos a dois traços fortes de sua cultura: um é a necessidade de organização, o outro é a fixação pela ideia de um limes, de uma fronteira rígida e definida. Esta fixação está presente até em seu mito fundador, em que Rômulo mata Remo por desrespeitar uma linha fronteiriça traçada no chão. A oposição entre espaço civilizado e espaço selvagem, tão importante aos romanos, foi manteve-se viva na cultura medieval.

Outro elemento contribuinte para a imagem negativa das florestas foi o cristianismo e seu embate com as religiões politeístas locais, profundamente ligadas à natureza. Embora tenha havido exceções, como regra o cristianismo se espalhou negando elementos comuns das religiões anteriores, como o culto a figuras animais e a sacralidade de certos bosques ou árvores. O próprio essencialismo cristão incentivava os fiéis a negar a natureza terrena e voltar os olhos ao divino.

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4. A floresta no imaginário medieval

A floresta aparece na literatura medieval como espaço da magia e do maravilhoso, e sua presença está concentrada nos gêneros que compõem a chamada narrativa fantástica. Ela é comum nos poemas épicos, nos contos mitológicos, nas hagiografias dos mártires mais antigos e nos romances cavalheirescos; mas não nas crônicas, cantigas, hagiografias de vidas piedosas e biografias. Isso é sintomático do papel que a floresta ocupava dentro da produção literária medieval.

Aqui vou tomar como base parte do trabalho do mitólogo e mestre em literatura medieval Joseph Campbell. Em sua obra O Herói de Mil Faces, Campbell identifica algumas estruturas que permeiam as obras de narrativa fantástica. Uma dessas estruturas é a divisão entre o Mundo Comumonde o herói habita, e o Mundo Especial, onde ele vive aventuras e sofre provações.

Se na Idade Moderna o mundo especial se encontrava nas distantes terras da América, África
e Ásia, no século XX se mudou para o espaço sideral e mais recentemente para o mundo virtual, na Idade Média o mundo especial era, por excelência, a floresta.

Exemplos são o que não falta. Na Saga dos Volsungos (obra mais conhecida das Sagas Islandesas, redigidas no século XIII e derivadas de uma cultura oral muito mais antiga), Sigmung e seu filho Sinfiotli se refugiam do rei Siggeir em uma floresta, onde encontram trolls e vestem peles amaldiçoadas que os transformam em lobos (uma das mais antigas versões da lenda do lobisomem). Nas lendas arturianas, a floresta de Brocéliande é associada ao mago Merlin, além de ser palco de conflitos com diversas criaturas mágicas, como dragões e um cavaleiro que se transforma em uma fera quadrúpede para sequestrar Artur.

Mesmo em narrativas inteiramente passadas em ambiente urbano, Merlin era comumente retratado saindo da floresta


Sir Perceval, um Cavaleiro da Távola Redonda, enfrentando um dragão


Na lenda de São Jorge, embora o dragão estivesse atacando periodicamente uma cidade, o santo precisa ir até seu covil em uma região selvagem para enfrentá-lo. Em muitas hagiografias, a floresta ou deserto é apenas um lugar de penitência, onde o santo suporta as inclemências da natureza e resiste às tentações do demônio. Um exemplo curioso é a lenda de Robin Hood: mesmo havendo uma inversão de valores - onde o fora-da-lei é herói e o representante da lei é vilão - a associação cidade>lei, floresta>fora-da-lei se mantém.

No imaginário medieval, animais reais como o elefante estavam lado a lado com monstros como o dragão


Representar animais de terras distante nem sempre era fácil. Esse, teoricamente, é um crocodilo

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5. Conclusão

Malvista por seus perigos e sua ausência de ordem, porém necessária por seus recursos, a floresta não era totalmente aceita nem completamente excluída; estava sempre às margens da sociedade civilizada, tanto geograficamente quanto simbolicamente. O mesmo pode ser dito daqueles que escolhiam ter uma relação mais estreita com estes espaços; os trabalhadores florestais mencionados mais acima, além de qualquer um que viajasse com frequência demais, como mercadores itinerantes e ciganos. No imaginário, a floresta desempenhava o papel de um mundo fantástico, povoado por monstros, bruxas, metamorfos e agentes do demônio.

Em grande parte, a identidade do homem medieval como um ser civilizado, capaz de cultivar
a terra, construir cidades e criar leis foi construída através da oposição a uma terra inculta, selvagem e sem leis.

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6. Bibliografia

ANÔNIMO – Saga dos Volsungos – séc XIII

BASCHET, Jérôme – A Civilização Feudal: Do Ano Mil à Colonização da América

BEAUNE, Colette – Os Lobos: Cidades Ameaçadas in História Viva ano IV nº38

BIRRELL, Jean – Peasant Craftsman in the Medieval Forest

CAMPBELL, Joseph – O Herói de Mil Faces

CONDURACHI, Émile – Roma: Berço da Latinidade in DUBY, Georges – A Civilização Latina: Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno

LE GOFF, Jacques - O Imaginário Medieval

PASTOUREAU, Michel – No Tempo dos Cavaleiros da Távola Redonda

SCHAFER, Adam – Forests as Exercises in Medieval Power

WILLIAMS, Michael – Dark Ages and Dark Areas: Global Deforestation in the Deep Past

WILSON, Dolores – Multi-Use Management of the Medieval Anglo-Norman Forest

sábado, 24 de maio de 2014

Mitos Históricos: Dom Pedro I



Você já ouviu falar em Reconstrução de Memória?

Por mais que hoje a maioria de nós brasileiros aceite a República como nossa forma legítima de organização estatal, é impossível negar que ela foi implantada através um golpe de estado. Um golpe militar, com pouco ou nenhum apoio popular.

Como no caso de qualquer manobra política ousada deste tipo, a nova elite precisou justificar, tanto para o momento quanto para a posteridade, suas ações, para evitar que elas passassem por simples usurpação. Um dos mecanismos mais eficientes para isso é reconstruir a memória que a população tinha sobre os antigos governantes.

Se tem uma figura fascinante que foi seguidamente execrada ao longo do último século foi nosso primeiro imperador, Dom Pedro I. É verdade; ele era um homem de ação, pouco metódico e muito diferente de seu filho, Pedro II. Mas nem tudo o que você aprendeu sobre ele era verdade.

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1. D. Pedro I era um ignorante, iletrado e sem estudo

Você chamaria de ignorante alguém que fala Português, Latim, Inglês, Francês e um pouco de Alemão? Ou alguém cuja obra literária favorita era a Eneida, do poeta romano Virgílio (lida no idioma original)? Sim, Pedro estava abaixo da educação esperada de um monarca da época (ou de sua esposa, Dona Leopoldina), mas estava longe de ser ignorante. Era especialmente versado em música (uma tradição dos Bragança), tendo composto inclusive nosso Hino da Independência. E ainda escrevia, sob pseudônimos, dezenas de cartas aos jornais locais, rebatendo as críticas ao seu governo.

Os Primeiros Sons do Hino da Independência, de Augusto Bracet


2. D. Pedro I era um grosseiro, que ignorava a esposa e os filhos

Sim, ele gostava de festejar e tinha várias amantes. Como qualquer nobre da época. Por mais que possamos julgá-lo com base nos valores morais de hoje, o casamento dentro de uma grande família era um acordo político, e não se esperava que o homem fosse fiel (no máximo que evitasse envergonhar sua esposa). Além disso, D. Pedro e D. Leopoldina tinham uma relação bastante amigável. Ela - bastante instruída e tendo trazido da Europa uma corte que era praticamente uma universidade - o ensinou algo de política, economia, botânica e do idioma alemão, e ele a ensinou música. Além disso, suas cartas revelam ao menos algum nível de preocupação e afeto por seus filhos, especialmente Pedro (futuro imperador).


3. D. Pedro I era um mau governante, absolutista e com sede de poder

Na verdade, Dom Pedro I era tido em sua época como um ícone de monarca constitucional. De fato, foi o único rei a qual foram oferecidas nada menos que 4 coroas nacionais, das quais todas ele recusou ou abdicou.
- A primeira, conquistada em 1822, foi a do Brasil, da qual abdicou pouco tempo depois, em 1831.
- Em 1826, quando seu pai morreu, abdicou da coroa portuguesa em favor de sua filha, D. Maria. Quando seu irmão D. Miguel usurpou o governo de Portugal para si, Pedro ainda lutou para derrubá-lo, o que conseguiu em 1834, quando recusou a coroa portuguesa novamente.
- Desde o fim do domínio napoleônico, a Espanha embarcou em uma crise e uma guerra civil entre absolutistas e constitucionalistas. Entre 1826 e 1830, Pedro I foi procurado três vezes pelos constitucionalistas para liderar em seu nome e clamar a coroa para si, mas recusou.
- Em uma longa luta de libertação contra o Império Otomano entre 1821 e 1830, os gregos pediram pelo apoio e liderança de Pedro I e ofereceram a ele a coroa, que ele recusou.

Abdicação de Dom Pedro I do Brasil, de Aurélio de Figueiredo

quarta-feira, 7 de maio de 2014

As batalhas medievais e o cinema



Desde pequeno, sempre adorei filmes com ambientação medieval ou (melhor ainda) fantasia medieval. Castelos, cavaleiros, duelos de espada, princesas... o pacote completo. Mas tinha um momento específico em todos estes filmes que me deixavam mais empolgado, pulando no sofá. As grandes batalhas.

Centenas ou milhares de humanos (ou monstros) de armadura, se acertando furiosamente com espadas e machados, em uma porradaria franca e sanguinária. Até nos RPGs que eu jogava ou narrava, minha intenção (nem sempre realizada) era sempre participar de guerras e batalhas campais. Pra ter uma noção, eu achava armas de fogo coisa de covarde, e só fui me interessar pro guerra moderna depois de Tropa de Elite e Band of Brothers.

Dando um salto adiante, o interesse por Idade Média me levou a estudar universitariamente História, e o interesse por batalhas me levou a estudar (extra-universitariamente) História Militar e Estudos Estratégicos. Chegando ao ponto de pesquisar manuais da época e assistir a dezenas de vídeos de reconstituições realistas de combates.

Mas aí entra a ironia da coisa: quanto mais eu aprendo sobre a realidade das batalhas medievais, mais difícil fica tolerar os filmes sobre isso. Eles erram muito! MUITO! Alguns mais do que outros, mas, de modo geral, não consigo assistir uma cena sem uma contagem de pelo menos cinco facepalms pro minuto.

Resolvi então escrever este texto, expondo apenas os "erros" (ou escolhas) mais básicos e mais comuns cometidos pelos cineastas.

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1. Formação de combate

Essa é a que mais dói de ver. Ao invés dos combatentes se organizarem em linhas e blocos, defenderem posições e lentamente ganharem ou perderem terreno, eles simplesmente se espalham por um campo e começam a lutar combates individuais, onde os personagens principais matam dezenas de inimigos que surgem por todos os lados.

A verdade é que batalhas eram bastante organizadas, e travadas em grupo, não individualmente.

Pra que formar uma coluna e defender aquela escada se a gente pode simplesmente se espalhar pelo pátio e lutar individualmente, né?


2. Escolha das armas

Espadas são legais, eu concordo. Machados também. Mas a verdade inconveniente é que a maior parte das batalhas era resolvida exclusivamente com lanças. Em combates entre blocos, onde a mobilidade individual é limitada, o alcance elevado da lança é a maior vantagem que se pode desejar.

A espada é superior em duelos individuais ou quando os blocos de soldados se chocavam e se misturavam, mas isto raramente acontecia. Em geral, o lado que está levando a pior simplesmente recua. Combates de curta distância causam baixas demais para serem uma estratégia padrão.

Com a formação organizada e o protagonismo das armas de haste, uma batalha devia ser mais ou menos assim


3. As Armaduras

Existe todo uma capítulo à parte quanto à falta de realismo e fidelidade histórica na aparência das armaduras, tanto em filmes de fantasia (onde isso é mais desculpado) quanto em filmes supostamente históricos. Não é disso que vou reclamar aqui, mas do funcionamento delas.

Muitas vezes, vemos espadas e flechas cortando e penetrando facilmente através de armaduras e elmos. O que não faz o menor sentido. A resposta é tão óbvia que chega a ser ridícula: se a armadura fosse tão inútil, as pessoas não usariam. A verdade é que poucos golpes causavam ferimentos graves.

Se uma espada corta tão bem, pra que se dar ao trabalho de usar armadura? Estilo?


4. O Sangue

Esse erro é mais ou menos uma extensão do anterior. Filmes como Cruzada adoram colocar shots de litros de sangue voando a cada golpe de espada, para aumentar a dramaticidade e fazer os fãs de gore urrarem. Mas os combatentes medievais usavam, por baixo da armadura, roupas grossas e acolchoadas, para aumentar a proteção. Mesmo no caso de um golpe que penetrasse a carne, as várias camadas de tecido impediriam o sangue se sair voando cinematograficamente, exceto em partes expostas do corpo (como o rosto, dependendo do tipo de elmo).


O velho combo: armaduras que não funcionam + inimigos que são bolhas de sangue prestes a explodir


5. O Resultado

Muitos cineastas acham que o único desfecho apropriado para uma batalha é a morte de todos os combatentes de um dos exércitos, definindo assim a vitória do outro. Talvez isso faça sentido quando seus inimigos são Uruk-Hai, mas humanos tendem a recuar, se render ou fazer acordos assim que se sentem em desvantagem.

De fato, a quantidade de mortos em uma batalha medieval costumava ser minoritária, o que explica como um mesmo cavaleiro conseguia participar de várias batalhas ao longo da vida. Além disso, uma guerra é como uma discussão, na qual os seus soldados são seus argumentos. Assim que você demonstrou sua superioridade e ganhou a discussão, não tem por que gastar mais soldados eliminando o oponente completamente.

De um lado, 100% de mortos. Do outro, 95%. Parece que temos um vencedor! Ao menos até ele perder tudo de novo daqui a uma semana, por falta de guerreiros

terça-feira, 6 de maio de 2014

Música é coisa de adolescente?



Antes de mais nada, quero deixar claro que esse texto é apenas, como sugere comodamente a imagem acima, uma reflexão. Não tenho ponto a provar aqui, nem ideia a defender. Ele surgiu de uma dessas recaídas nostálgicas, em que você passa um ou dois dias revisitando as músicas saudosas, os filmes clássicos e as velhas fotos de algum período bom do seu passado. Tenho certeza de que não sou o único a fazer isso de vez em quando. Acho até saudável.

Fazendo isso outro dia (hoje), lembrando do meu colegial, cheguei a uma conclusão: cara, a gente era obcecado pro música! Não falo de ouvir música; isso eu acho que a maioria dos meus amigos e conhecidos ainda faz bastante. Estou falando de a maioria absoluta das nossas interações sociais envolver música.

Corrigindo então o título do post: Música [como matriz central de interação social] é coisa de adolescente?


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Há alguns anos atrás, minha página inicial do orkut era preenchida quase inteiramente por videoclipes, letras de músicas e curiosidades sobre membros de bandas. Era comum até ter um álbum com fotos das suas bandas favoritas. Hoje, minha página inicial do facebook é basicamente videogame, memes e Game of Thrones. Poucos conhecidos da minha idade ainda se dão ao trabalho de conhecer bandas novas, e em geral só recomendam pros outros se for pauta de podcast.

Comecei a fazer uma lista de bandas da época que a gente ouvia (excluindo os clássicos de décadas anteriores, que a gente também curtia), e eram MUITAS. Quantas de hoje a gente ouve? A maioria dos meus amigos mal saberia citar uma ou duas.

Há alguns anos, com toda a relativa limitação tecnológica da época, vivíamos mostrando músicas e vídeos uns pros outros nos nossos mp3's e mp4's. Hoje, com smartphones e tablets incríveis, não fazemos mais isso. A geração um pouco mais jovem faz; a minha, aparentemente não.

Quando eu tava no colégio, sempre havia dois ou três violões espalhados pelo pátio, cada um com a devida rodinha de ouvintes ao redor, cantando junto e tentando bater palmas no ritmo. Agora, na faculdade, raramente vejo um violão. Quando vejo, é parte de alguma rodinha de samba irônica e bem desanimada.

Com algumas exceções, quase todo mundo que tava tentando aprender a tocar guitarra na época (e era gente pra caralho), hoje já vendeu o instrumento ou deixou acumular poeira num canto. E as sessões de ficar assistindo videoclipes? Substituídas inteiramente por sessões de vídeos engraçadinhos ou game commentaries. Meus contemporâneos ainda assistem videoclipes?

Da uma sensação estranha notar que a maioria das pessoas que vejo usando camisetas de bandas é mais nova que eu.

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Vejam bem, a gente ainda ouve música. Muito. Mas parece que não somos mais tão vidrados nisso. Parece que ela fica restrita a seus espaços: os fones de ouvido e a boate, talvez. Queria saber se isso é um fenômeno generalizado, ligado à idade, ou se só aconteceu entre as pessoas que me cercam.

Não vou terminar esse texto com lamentos: voltar ao passado, por mais gostoso que ele tenha sido, não traz bem nenhum (o que não deixa de ser uma frase estranha, vinda de um historiador). Mas que dá saudades, isso dá.